Vistoria em seco: o que o vistoriador examina e como chegar preparado
Quando a vistoria em seco é exigida, o que o vistoriador examina no casco e na popa, como funciona a medição de espessura e o que preparar antes da docagem.
Por Equipe Técnica Record · 2026-09-29 · Vistorias de Embarcação
Metade do que decide uma vistoria fica submersa durante a operação inteira. Casco, hélice, eixo, leme: nada disso se avalia com a embarcação na água.
E chegar despreparado ao estaleiro custa caro de um jeito específico. Docagem se cobra por tempo ocupado, não por serviço concluído. Cada dia em cima da carreira esperando alguém chegar entra na conta igual a um dia de trabalho.
Quando a embarcação precisa sair da água
A renovação é o caso mais conhecido, mas não é o único.
Na vistoria inicial. É a que se faz durante ou depois da construção, da modificação ou da transformação da embarcação, e a norma é direta: realizada em seco e flutuando.
Na renovação. Parte flutuando e parte em seco. Não é escolha do armador nem do vistoriador.
Depois de alteração no casco. Se houve alteração no casco, na estrutura, nas dimensões principais, ou qualquer outra que só se verifique com a embarcação fora da água, o novo certificado só sai depois de uma vistoria inicial em seco e flutuando.
Depois de avaria. A avaria faz o certificado perder a validade, porque a embarcação perdeu as condições de segurança originais. O CSN é cancelado e a embarcação sai de tráfego. Para voltar a operar, é preciso uma vistoria de renovação flutuando, e em seco se necessário.
As exceções da renovação, e elas são estritas
- Flutuantes estão dispensados de docagem na primeira renovação.
- Flutuantes com casco de toras de madeira não necessitam de docagem.
- Outros casos podem ser dispensados pela DPC, com justificativa, quando não há local adequado para docar na região e a embarcação não tem como se deslocar.
O que o vistoriador examina com a embarcação em seco
As obras vivas, que é o casco abaixo da linha de flutuação, são a maior superfície do exame e a única que só existe fora da água.
No chapeamento, o que se olha são mossas, amassados, trincas e furos por corrosão. O critério não é estético: é se aquilo compromete a resistência estrutural e a estanqueidade.
Item por item, com a embarcação em seco
- Obras vivas: o casco abaixo da linha de flutuação
- Chapeamento: mossas, amassados, trincas e furos por corrosão
- Tubulações de sucção e de descarga, por fora e por dentro, com teste de válvula se o vistoriador julgar necessário
- Caixa de mar e qualquer outra abertura no casco abaixo do convés principal
- Saídas de gases da combustão dos motores, quando a descarga é pelo casco
- Marcas de calado nos dois bordos, à vante, a meia-nau e à ré
- Madre do leme, eixo propulsor, hélice e tubo telescópio
- Casco de madeira: o calafeto, a partir da primeira renovação
Se o casco é de madeira
Embarcação de madeira não faz medição de espessura por ultrassom, mas tem um item que o casco metálico não tem: o calafeto, verificado a partir da primeira renovação. É a vedação entre as tábuas, e é o que separa uma embarcação seca de uma embarcação que trabalha com a bomba de porão ligada.
Os ânodos de sacrifício
Não são exigência de norma, são consequência dela. O ânodo se consome no lugar do aço do casco, e ânodo gasto é casco desprotegido. Como só dá para trocar com a embarcação fora da água, a docagem é a hora. Chegar ao estaleiro sem ânodo novo comprado é o tipo de detalhe que custa mais um dia de carreira.
A medição de espessura, item por item
É exigida na renovação de embarcação metálica, a partir da primeira renovação, e nas intermediárias seguintes.
Quem faz não é a certificadora. O serviço é executado por profissional qualificado e certificado no SNQC/END, contratado pelo armador, com a habilitação válida na data do serviço.
O que a medição abrange: pelo menos o chapeamento do casco, incluindo o fundo, o convés principal e as anteparas estanques, com no mínimo cinco pontos por chapa.
O relatório compara com a espessura original e indica o percentual de redução de cada chapa, destacando as que passam de 20%.
E vem um laudo junto. Assinado por engenheiro naval ou tecnólogo naval, com a respectiva ART, atestando que a embarcação está em condição estrutural satisfatória, dizendo quais chapas precisam ser substituídas e justificando a aceitação das que passam de 20% de redução.
Sem essa justificativa, o caminho é um só: substituir a chapa. Na Record, enquanto a justificativa não chega, a exigência fica em aberto, e com exigência em aberto não se emite nem se endossa certificado.
O que precisa estar pronto antes de subir
Os três agendamentos que precisam coincidir
- Vistoriador agendado — A vistoria precisa acontecer enquanto a embarcação está em seco. Estaleiro agendado sem vistoriador agendado é vaga desperdiçada.
- Ultrassonista no mesmo período — Casco metálico tem medição de espessura, e ela é acompanhada pelo vistoriador. Juntar as duas agendas evita a segunda viagem.
- Insumo para as manutenções que aparecerem — Tinta, ânodo, material de reparo, solda. A embarcação já está fora da água; descobrir que falta material é perder a vaga com ela em cima da carreira.
A pergunta anterior a todas
A sua embarcação está mesmo no ponto do ciclo que você imagina? O ciclo é de 10 anos para embarcação sem propulsão e de carga, e de 5 anos para as demais. Uma balsa de carga e o empurrador que a movimenta podem ter ciclos diferentes, com o mesmo dono.
Perguntas frequentes
A vistoria em seco só acontece na renovação?
Não. Acontece também na vistoria inicial, que é feita durante ou depois da construção, modificação ou transformação; depois de alteração no casco, na estrutura ou nas dimensões principais; depois de avaria, quando for necessária; e na vistoria intermediária de embarcação acima de 500 de arqueação bruta na navegação em mar aberto.
Minha embarcação sofreu uma avaria. O certificado continua valendo?
Não. A avaria faz o CSN perder a validade, por perda das condições de segurança originais, e a embarcação é retirada de tráfego. Para voltar a operar, é feita uma vistoria de renovação flutuando, e em seco se necessário, com o cumprimento das exigências que aparecerem.
Quem faz o ultrassom?
Profissional qualificado e certificado no SNQC/END, contratado pelo armador. A certificadora acompanha a medição.
Dá para fazer a vistoria em seco num dia e o ultrassom em outro?
Dá, mas sai mais caro duas vezes: cada dia de estaleiro entra no preço, e o vistoriador precisa voltar ao estaleiro para acompanhar a medição.
Minha embarcação é de madeira, preciso do ultrassom?
Não. A medição de espessura é para casco metálico. No casco de madeira verifica-se o calafeto, a partir da primeira renovação.
E se uma chapa estiver com mais de 20% de desgaste?
O laudo do engenheiro ou tecnólogo naval precisa justificar a aceitação daquela chapa. Sem justificativa, a chapa é substituída.
A saída de gases é sempre verificada?
Só quando a descarga é pelo casco. Quando a saída é por chaminé, ela não entra na vistoria em seco.
Sua frota está no ponto do ciclo que você imagina? Um diagnóstico mostra em que etapa cada embarcação está, qual é a próxima vistoria e se ela vai exigir tirar a embarcação da água.